terça-feira, 30 de outubro de 2007

Capítulo XI – Calmaria Num Infinito Arenoso.

Estariam os olhos de Kiren lhe pregando uma peça ? E que arrepio estranho é esse que percorreu seu corpo e agora faz o coração do andarilho mestiço bater em acelerado descompasso ?

Esses são os primeiros pensamentos que se formam na mente de Kiren após as chocantes constatações às quais chegou ao recuperar a consciência.

Ajoelhada ao lado do estranho meio-elfo, que levantou subitamente, como se houvesse acordado de um horrível pesadelo, e imediatamente após dizer palavras que tentavam acalmar o servo da Senhora da Magia, a belíssima e jovem mulher coloca as mãos nos ombros do forasteiro, sinaliza “não” com a cabeça e o empurra para baixo, para que ele se deite novamente.

Kiren tenta resistir, mas seu corpo responde negando seu esforço, lhe presenteando em seguida com uma lancinante dor, que faz o andarilho sentir como se sua pele estivesse sendo arrancada de seu corpo pelas mandíbulas ígneas de uma salamandra infernal.

Sem mais nada poder fazer, Kiren apenas se deixa deitar, grunhindo sonoramente sua dor por entre seus lábios comprimidos e seus dentes cerrados.

Em alguns segundos a dor diminui. Com os olhos fechados, o clérigo sente um grosso pano úmido ser colocado em sua fronte cobrindo e aliviando o ardor que sente em sua face.

Finalmente, após alguns minutos, a dor se vai. O pano, já quase seco, que lhe cobri o rosto é retirado e, pela primeira vez, Kiren consegue abrir seus olhos de tal forma que ele possa ver com absoluta nitidez aquela que parece fazer de tudo para ele sentir-se melhor.

(- Pelos deuses, como pode haver tamanha beleza em uma só criatura) – pensa o andarilho.

Com calma, ele vira seu rosto para a direita e olha para ela.

Ela continua ajoelhada, mas agora está virada de costas e em frente a um largo recipiente de barro, o qual lhe lembra muito uma bacia onde, parecendo muito concentrada, ela novamente umedece o pano que até pouco tempo estava sobre a fronte do andarilho mestiço.

Ela veste uma espécie de toga verde-clara, que parece ser feita de um tecido muito leve, como se fosse seda, a qual se fecha em sua cintura através de um cinto que parece ser feito de uma grossa tira de couro que foi trançada como uma corda.

Sua pele é bronzeada, bastante lisa e uniforme, como a pele das elfas selvagens; Seus olhos são verdes como uma esmeralda élfica de Myth-Drannor; Seus cabelos longos e ondulados, absolutamente pretos, estão presos por uma tira do mesmo tecido da toga no centro da parte posterior de sua cabeça, formando um rabo-de-cavalo que lhe desce até sua cintura; Finalmente, seu corpo desafia qualquer tipo físico já encontrado por Kiren, sendo paradoxalmente esguio e curvilíneo.

Mal o olhar do andarilho mestiço, após percorrer todo o corpo da mulher à sua frente, chega à sandália de couro que lhe cobre os pés, seu corpo novamente se arrepia, seu coração novamente dispara e sua respiração começa a se tornar mais difícil.

Como se houvesse percebido isso, o rosto dela se vira para ele, causando o inevitável encontro de seus olhares.

A respiração do clérigo imediatamente pára. Junto com ela se vai qualquer menção de piscadela que o olho dele pudesse cogitar.

Como que percebendo a intensidade e a transparência afetiva do olhar de Kiren, ela sente sua face enrubescer. Sua boca se abre sutilmente, um fio de ar adentra seu peito e um incontido sorriso lhe irrompe dos avermelhados e finos lábios que formam sua boca.

Para Kiren, esse momento parece durar toda uma extasiante eternidade.

Repentino, o ar quente e seco preenche o pulmão do servo de Mystra e ele, envergonhado, mas sem saber exatamente porquê, volta seu rosto para o alto, percebendo apenas nesse momento que ele e ela se encontram dentro de uma barraca feita de um tecido branco, como se fosse um grande e recém cortado lençol.

Kiren olha novamente para a bela moça que cuida dele e tenta falar algo mas mesmo a sutil intenção de fazer isso já lhe provoca um forte ardor pelo rosto todo.

Mais uma vez, ela parece perceber o que ele pretendia fazer e com um movimento rápido coloca sua mão sobre a boca do clérigo, delicadamente tocando seus lábios.

Súbito, mais uma vez o corpo de Kiren se arrepia, sua respiração cessa e seu coração dispara. Ele sente que pode desmaiar ali mesmo e faz um enorme esforço para recuperar o controle de seus pulmões e de seu coração.

Novamente sinalizando “não” com a cabeça, ela abre um leve sorriso e coloca o pano úmido sobre a cabeça do andarilho mestiço.

Kiren fecha novamente seus olhos. Sua mente começa a vagar em devaneios.

(- Onde eu estou ?)

(- Como será que cheguei aqui ?)

(- Quem é ela ?)

(- O que é ela ?)

(- Como é aqui ?)

(- Será mesmo que estou em um deserto ?)

(- Onde estará Dorün ? Será que ele morreu ?)

(- Por que me sinto assim ao olhar para ela ?)

(- Quem será ela ?)

(- Como será ela ?)

E assim, vagando por uma nuvem de pensamentos, sem poder enxergar por alguns minutos, Kiren então começa a usar seus outros sentidos para tentar descobrir mais sobre o ambiente onde está.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Capítulo X – Pegadas na Areia.

A paz. Obscura. Silenciosa. Insensível. Insossa. O Nada, absoluto.

Vagarosamente, como o andar das estrelas prateadas sobre a cortina azul-escura que cobre o céu noturno de Faerûn, uma sutil sensação, como o toque de um tecido muito fino, se faz perceptível na superfície da pele do andarilho mestiço.

Em seguida, um distante som soproso, delicado sussurro materno que nos desperta quando o mundo dos sonhos parece não nos deixar partir, ressoa dentro de seus ouvidos.

Da mesma maneira, em suas narinas, a secura ríspida e a temperatura elevada do ar se fazem notar novamente ao mesmo tempo em que o andarilho percebe que sente um extremo calor, calor esse que quase queima seu corpo.

Repentinamente, como se tudo acontecesse ao mesmo tempo, Kiren recupera sua mais recente memória.

O Forte, a tempestade, o ataque, os defensores, os combates, os feridos, Dorün,... DORÜN !

Como que ecoando sua memória, seu corpo exprime o primeiro espasmo de dor e junto com ele, em um instante, a mente do clérigo de Mystra lhe traz à consciência o que lhe aconteceu.
Seu Mystraken, a nova dádiva de Mystra em cuja criação ele, o andarilho mestiço, participou; A máxima Bola de Fogo que Dorün é capaz de conjurar; O fatídico encontro; O inevitável duelo; O imponderável relâmpago; A explosão; A Luz Absoluta e Infinita; O deserto; Dorün flutuando em um céu azulado e infinito; Kiren sobre uma duna de areia grossa;

Eis então que, interrompendo essa avalanche de fragmentos mnemônicos, Kiren volta a ouvir a voz de sua própria mente.

(- Não, não pode ser...) – o clérigo começa a ofegar.

(- Como pode... De repente...) – sua garganta se aperta.

(- O Mystraken... sumiu...) – seu corpo todo se tensiona.

(- A Bola de Fogo... O fogo negro... Vai me atingir...) – um intenso ardor lhe assalta os sentidos.

(- Não... NÃÃÃÃOO !) – a consciência retorna.

Súbito, o pulmão do clérigo se enche de ar, seu abdômen se contrai e, na velocidade dos relâmpagos que junto com a água choviam em direção ao forte, seu tórax se ergue enquanto sua perna se dobra ligeiramente e seu braço esquerdo levanta-se oferecendo sua mão que, em forma de garra, tenta alcançar algo que lhe salvará a vida.

- MYYYYSTRAAAAAAAAAA...

- Sukhladin ihhyz, hadjhe, hadjhe...[1]

Uma delicada, melodiosa e belíssima voz feminina lhe preenche os sentidos. Se ele não tivesse tantas dores em seu corpo e tamanha dificuldade para entender o que foi dito, Kiren desconfiaria estar nos Campos Elíseos, junto a seu irmão, ouvindo a voz da própria Senhora da Magia.

Então seus olhos, finalmente, se abrem. A imagem demora a se formar e a adquirir a definição necessária. Uma fortíssima luz solar toma de assalto os olhos claros do andarilho mestiço vindo quase a queima-los.

Repentinamente, com a visão recuperada, vem a confirmação do que os demais sentidos do andarilho já diziam. Sim, ele está no deserto. Sim, há uma mulher com ele. E sim, definitivamente, ela é a obra divina mais bela que ele já teve a oportunidade de encontrar em toda sua vida.

[1] – Está tudo bem, calma, calma...