terça-feira, 3 de abril de 2007

Capítulo IV – Assombrado Brilhante

Finalmente o corredor é deixado para trás e a fria água que desaba do céu banha todo o seu corpo. Esta, junto ao vento que zune e castiga esse forte atingem seus olhos como dardos de gelo, o que torna muito difícil mantê-los abertos. Ao fim de um olhar panorâmico, uma conclusão assalta seu pensamento:

(- Oh... Como gostaria de poder mantê-los cerrados...)

Em um instante, o retrato do caos. Dezenas de homens, incluindo o Capitão Esop, cobertos de flechas e mortos, tendo sido este último presenteado com uma certeira flecha a lhe atravessar a garganta; Dezenas de homens, arqueiros e espadachins em desespero; O portão, aparentemente tão resistente, arrombado e coberto de chamas; Inúmeros guerreiros invadindo a fortificação e ceifando, como quem corta trigo, a vida de qualquer um que se coloca em seus caminhos. Mais uma vez, sua espinha, aliás, seu corpo inteiro, tomado por uma monstruosa tensão, é preenchido por arrepios dos mais diversos tipos.

Inspirando o quanto pode do ar ventoso, úmido, cheirando a fumaça e sangue, que nesse momento cobre o forte, e apelando para os poderes divinos de sua Senhora Mystra, a Deusa da Magia, ele junta forças para elevar sua voz por sobre os gritos desesperados.

Então, no meio do caos quase absoluto, palavras de ordem ganham vulto, ecoando por todo o forte. Por um instante todos, invasores e defensores, param; Os sons da tempestade se esvaem; Não, não é que tudo tenha silenciado. Repentinamente, como se um deus estivesse falando, nada mais é ouvido além da voz do andarilho.

Assim que o som atinge seus ouvidos, uma mudança se faz na face do elfo negro. Em seu outrora calmo, confiante e sorridente rosto, se configura uma carranca. Seus dentes se fecham e se apertam abrindo-se em seguida em um sorriso diabólico. Seus olhos brilham em uma fúria contida, porém contundente, aquela mesma que apresentam os predadores quando encontram sua caça predileta, um presente dos deuses.

Concomitantemente, tudo converge na mente dos defensores. Suas noções militares de estratégia e tática de combate, unidas às experiências subjetivas de cada um, imediatamente os preenchem de um mínimo arremedo de consciência e de uma parca autoconfiança, os quais pareciam irremediavelmente perdidos.

Com a moral ligeiramente recuperada, os defensores voltam-se para a defesa da fortificação com todas as suas forças. A luta começa a se equilibrar, com uma ligeira vantagem para os atacantes, que se encontram em maior número.

Com outra ordem do andarilho, os defensores separam parte de suas forças para levar a seu novo líder todos aqueles que estão feridos, porém vivos. Para esses, o andarilho, imbuído do símbolo sagrado e das orações que rogam pelos poderes de sua deusa, possibilita que muitos dos defensores que estavam fora de combate tenham parte de suas forças recuperadas e possam retornar à batalha.

Assim, pouco a pouco, as forças defensoras começam a fazer frente às forças atacantes. O combate se endurece. O cheiro de sangue começa a tomar conta do ar, que agora já se encontra menos ventoso, mas ainda preenchido de enregeladas gotículas de chuva.

Envolvidos no combate, muito poucos percebem a sombra obscura que ultrapassa a muralha do forte, adentrando no local, e desses, nenhum consegue sobreviver a tempo de avisar mais alguém sobre esse fato.

Súbito, uma ordem, vociferada na desagradável língua secreta dos elfos negros do subterrâneo, é transmitida ao exército invasor. Uma parte de seus soldados passa a avançar na direção da porta do forte de onde saiu o andarilho. As forças defensoras concentram-se e começam a impedir o avanço dos invasores que caminhavam nessa direção. Um furioso combate se inicia, com o próprio elfo negro liderando suas forças e desequilibrando uma batalha que seria muito mais difícil sem sua presença.

Súbito, seus olhos são atingidos por um brilho prateado. Lá está ele. Um aterrorizante sorriso imediatamente se forma em seu rosto ao mesmo tempo que o seguinte pensamento surge em sua mente:

(- Inacreditáveis as surpresas que o destino nos reserva, não é ?)

Como um espectro, o elfo negro se move por entre os combatentes chegando rapidamente à fonte de uma série de brilhos prateados e doces orações que atingem seus olhos e ouvidos.

Uma sombra se faz e começa a crescer atrás do andarilho, que se encontra ajoelhado, segurando em seu colo um guerreiro bastante ferido. Seu pescoço se contorce e seu rosto aparece por sobre seu ombro esquerdo. Seus olhos se arregalam. Sua mente é instantaneamente lançada ao passado, retornando ao presente nessa mesma velocidade. Como se atingido por um relâmpago, seu corpo exprime o choque que sente.

Sobrepondo-se completamente sobre quaisquer outros sons que porventura tivessem como destino os ouvidos do andarilho, a voz sonora, grave e rouca do elfo negro faz ecoar, por todo o forte, um nome. Mais do que isso, o que se ouve é quase uma convocação:

- KIREN !

Imediatamente, um pensamento constitui-se na mente do andarilho, cuja face é, de forma absolutamente repentina, tomada por uma expressão de extrema fúria, a qual esclarece por completo a intensidade dos sentimentos que o andarilho guarda pelo elfo negro que fez seu nome reverberar por toda a fortificação:

(- Não ! Não pode ser ele ! Depois de todos esses anos... Não agora...)

2 comentários:

The Prince. disse...

PÁRA O MUNDO QUE EU QUERO DESCER!!!!

Elfo negro tem um caso com o andarilho?!!?!?!!?! Oh my!!!!

Ok...você poderia ter ficado sem essa...mas...eu não aguentei...XD

Essa história tem algo muito intenso por trás: algo que envolve mais do que o Bem e o Mal. Algo que envolve mais do que os sentimentos...

...eu ainda conseguirei ler nas "entre linhas". XD

Estou gostando da história!! Tenho sede de MAIS!! XD

Kisses for you!

Anônimo disse...

Aê!!!!!