sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Capítulo XII – Mergulho no Mar de Silício.

O sopro dos ventos e o som da água sendo movida dentro da bacia de barro.

O odor arenoso e o som da pele que se move sobre o áspero chão desse mar de silício.

A umidade do pano, o toque de seu tecido macio e o alívio que o contato com a água traz à sua pele.

O calor que inebria, lancinante, e o suor que exala de seu corpo, escorrendo salgado e áspero, incessantemente.

O frio cortante, que em companhia dos pesadelos que não lhe abandonam e lhe atrapalham o sono, tirando-lhe sua paz e suas forças.

O doce odor do jasmim que exalava de seu corpo, o delicado toque de pétala floral que suas mãos transmitiam, o profundo e iluminado olhar esmeraldino, a viçosa e lívida pele, do mais puro bronze, a melodiosa e agradabilíssima voz, que encantava seu corpo e alma fazendo-o devanear, lançando-o num mundo onírico de bem-estar que o fazia perder a exata percepção da passagem do tempo.

(- Ah, certamente, - pensava o andarilho - certamente eu poderia passar o resto de minha vida ao lado dela.)

Assim, por volta de dez noites transcorreram, fechando o período de uma lunação crescente completa, até que Kiren estivesse minimamente restabelecido.

Nesse período, o servo da Senhora da Magia descobriu o nome daquela que tão caridosamente o assistia, a qual se chama “Schahms” e lhe ensinou seu nome, o qual ela dizia com um imenso sotaque que o fazia soar como “Kirirhen”.

Além disso, começou a entender algumas palavras que ela dizia. Compreendeu, devido às inúmeras vezes que essa palavra foi dita, que “hadjhe” tinha um sentido parecido com o evocado pela palavra “calma” e pela expressão “fique calmo”.

E, pouco a pouco, palavra a palavra, Kiren aprendeu a, rusticamente, se comunicar com Schahms e lhe transmitir um pouco do que sentia e do que queria lhe dizer por meio de sinais quase-mímicos.

Então, passado esse período de recuperação, logo no início de uma manhã, Schahms, dessa vez vestindo uma toga avermelhada, também amarrada na cintura com uma tira de couro, mas dessa vez com os cabelos longos soltos, acorda Kiren e começa, apressadamente, a recolher as coisas que estavam na tenda onde ele ficava.

Nada mais precisou ser dito ou feito para que o andarilho percebesse que era hora de sair dali.

Com dificuldades, Kiren se levantou e, pela primeira vez, pôde olhar seu corpo quase nu, coberto apenas no ventre por um tipo de tecido enrolado que fazia vezes de roupa de baixo.

Em seus braços, suas mãos e suas pernas o clérigo encontrou impressionantes marcas de queimaduras que cobriam sua pele quase completamente.

Ajoelhado, pôs-se a lavar o rosto na bacia de barro percebendo que sua face também se encontrava levemente desfigurada devido às marcas de seu último combate.

Imediatamente, essa imagem trouxe à tona suas memórias acerca da peleja que travou com Dorün, especialmente o momento em que, atingidos pelo relâmpago no forte, entraram em uma espécie de vórtice, sendo libertos em seguida num local desértico onde, para extremo espanto de Kiren, o Mystraken que ele havia invocado em nome da Senhora da Magia perdeu a força, sendo vencido pela Bola de Fogo lançada por Dorün.

Súbito, todo o corpo do andarilho se tensiona com a lembrança do momento em que foi tomado pelas chamas roxas da magia lançada pelo elfo negro e do inevitável desmaio que ocorreu em seguida, enquanto aos ouvidos do andarilho ainda chegava o som dos passos de Dorün, o qual corria gritando que ainda voltaria para finalmente acabar com a infeliz existência de Kiren Cadien.

Passada essa desagradável sensação, que escorria de sua mente, como a água que lhe terminava de banhar a fronte, Kiren, com dificuldades, ergue-se por completo.

Schahms sai da tenda com passos e gestos apressados enquanto diversas vozes graves, claramente masculinas ecoam pelas redondezas.

Kiren, reencontrando seu equipamento intacto, colocado cuidadosamente ao lado do colchonete onde estava deitado, começa a se vestir.

Em instantes o andarilho se apronta e o lençol branco que cobria a tenda onde ele estava é retirado por Schahms.

Tomado por uma surpreendente emoção, Kiren reencontra a luz do Sol, a manifestação máxima e mais sensível do poder de Lathander.

Imediatamente, seus olhos se fecham. Seu corpo dói e as queimaduras voltam a arder. Lágrimas escorregam de seus olhos claros que, cobertos por suas mãos, se abrem lentamente.

Em segundos, sua visão se normaliza e o clérigo vê o infinito mar de areia, brilhante e quase dourado, em que se encontrava, tão imenso que ele quase podia ver nesse lugar claramente terroso a formação de ondas que se vê à beira mar.

(- Estarei em Anauroch ? Será ?), - pensa Kiren.

Em seguida, o servo da Senhora da Magia, pela primeira vez, consegue enxergar com nitidez a figura das pessoas que o salvaram da morte certa, e que dele cuidaram sem, em nenhum momento, lhe cobrar algo por isso.

São homens corpulentos, não muito altos, lembrando anões supercrescidos. Suas peles são bronzeadas como a de Schahms, mas alguns poucos, como a própria, possuem olhos claros como os elfos.

Vestem grossos panos, que lhe cobrem todo o corpo, inclusive o rosto e os cabelos, cobertos por turbantes e lenços, todos com cores fortes, sendo até mesmo o branco absolutamente reluzente e o negro absolutamente tenebroso.

Em suas cinturas, grandes e largas espadas curvilíneas repousam ao lado de sabres e punhais também curvos como o crescente lunar.

Seus cavalos são, em sua maioria, peludos, amarronzados, grandes e também corpulentos, sendo seu dorso quase tão alto quanto seus próprios cavaleiros.

(- Que excelentes guerreiros devem ser esses homens ! – Pensa o andarilho.)

Então, uma a uma todas as tendas são desmontadas e, em questão de minutos, estão todos prontos para partir.

No meio daquela cacofonia, uma voz conhecida chega aos ouvidos de Kiren.

Atendendo ao clamor de Schahms, o andarilho se vira e a encontra com o rosto coberto por um tecido que lhe deixa apenas os olhos descobertos. Ela está sob o dorso de um cavalo, e lhe aponta um companheiro, que lhe oferece sua garupa.

Com uma ajuda do cavaleiro indicado por sua curandeira, Kiren sobe sobre o imenso cavalo de pêlo amarelado.

Assim que se firma sobre o animal, o cavaleiro lhe oferece um turbante como o dele, mas de cor azul escura, como o manto do andarilho, o qual, com alguma dificuldade, Kiren coloca sobre sua cabeça e sua face.

Um grave urro se faz em um ponto à oeste de onde estão. É um homem ricamente vestido que o emite. Todos imediatamente correspondem ao urro, urrando de modo semelhante.

Súbito, a cavalgaria parte, de costas para o Sol. O sudoeste os espera.

(- Para onde vão ?)

(- Quem são ?)

Essas são questões que apenas o tempo poderá responder ao clérigo.

3 comentários:

Anônimo disse...

Eu quase consigo visualizar. A areia, o sol, o barulho do mar...

Os personagens me lembraram um pouco tuaregues do deserto. Eu lembrei um pouco daquele cara da Múmia ( não sei se você assistiu): http://www.cinema.com/image_lib/3888_0803.jpg

Eu adoro a personagem dele no filme, adoro histórias que se passam nesse clima meio arenoso , não vou dizer desértico porque eles estão à beira mar,rs

Se você publicar um livro um dia, com certeza eu vou comprar, moço.

E se eu fosse você, eu pensaria de verdade nisso. Eu tenho um amigo que está prestes a lançar o livro dele, e tudo começou com a criação de um mundo no RPG. E você tem jeito pra coisa.

Como diria nosso amigo, Gutobat: 'TSC, acredito!'

Vou querer a minha cópia autografada. =)

Tenha um excelente fim de semana e continue postando, por favor. Foi um balsamo hoje poder ler alguma coisa que me distraisse, mesmo que por um curto período de tempo do sufocante dia a dia,rs.

Um beijo enorme.

Anônimo disse...

P.s> disfarça q o sono me fez viajar... =/

Agora eu reli e vi que o mar é de silício... hahahahahah

The Prince. disse...

*_*

*poft*

i_i Quem mandou parar??? xD

Nossa...tá muito bom. Eu viajei legal. xD

*momento maionese*

Sabe o que isso me lembra? Aqueles programas que você está quase com a cara enfiada na tv de tanta emoção, com a boca mexendo junto com a dos personagens e...

...tam dã!!! "to be continued" aparece. ¬¬ Isso é realmente irritante. u-u Tudo bem, se fosse pelos telespectadores, o programa não acabava mais...mas...TT_TT é tão ruim quando você leva um tranco da realidade, te separando do seu programa mais uma vez...

*click*

@_@ Enfim!!! Ficou muito bom. 8D Continue assim.

ò.ó Porque se não continuar...te trancarei na masmorra com pão e água e toneladas de folhas para escrever!! Muhauahhuhuhuauhhuuh!!! *trovões*

Ok...o.o parei.

Kisses!!